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Antes de Adormecer, I & II - Jason Carneiro

(Inédito)


I

Disseste o primeiro sim, e o silêncio
ouviu-se em música. Os meus muitos erros,
feitos em flor, cobriram o mar de gelo,
terra de desterro e ermo, onde o teu

beijo foi buscar-me. Espia os espelhos
sem imagem de mim, que o teu poder
de sonho quis estrelas no meu peito
e, lúcidos, susteve no teu céu.

Teu corpo de varandas e mistérios,
que não termino de entender, é espesso
véu de maravilha sobre o que vejo

e vivo: tudo mais é caos e treva
e eu colho, dos chãos que se dissolveram,
os sóis que amanheceram dos teus pés.


II

Disseste o último não, e o silêncio
dos desertos, das mortes e dos erros
choveu em lanças de marfim e gelo
sobre os meus sonhos (tudo tanto teu

e tanto meu: nosso abismo de espelhos -
as almas se abraçaram e, sem poder,
mescladas, habitar o mesmo peito,
passaram a refletir-se, mar e céu).

Teu nome de gerúndios e mistérios
ribomba em mim e dói-me tão espesso
que o todo do que sei e sinto e vejo

(lembrar te faz refém) é caos e treva,
a vida que teus olhos dissolveram,
os mundos que esmagaste com teus pés.

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