(Inédito)
I
Disseste o primeiro sim, e o silêncio
ouviu-se em música. Os meus muitos erros,
feitos em flor, cobriram o mar de gelo,
terra de desterro e ermo, onde o teu
beijo foi buscar-me. Espia os espelhos
sem imagem de mim, que o teu poder
de sonho quis estrelas no meu peito
e, lúcidos, susteve no teu céu.
Teu corpo de varandas e mistérios,
que não termino de entender, é espesso
véu de maravilha sobre o que vejo
e vivo: tudo mais é caos e treva
e eu colho, dos chãos que se dissolveram,
os sóis que amanheceram dos teus pés.
II
Disseste o último não, e o silêncio
dos desertos, das mortes e dos erros
choveu em lanças de marfim e gelo
sobre os meus sonhos (tudo tanto teu
e tanto meu: nosso abismo de espelhos -
as almas se abraçaram e, sem poder,
mescladas, habitar o mesmo peito,
passaram a refletir-se, mar e céu).
Teu nome de gerúndios e mistérios
ribomba em mim e dói-me tão espesso
que o todo do que sei e sinto e vejo
(lembrar te faz refém) é caos e treva,
a vida que teus olhos dissolveram,
os mundos que esmagaste com teus pés.