(Inédito)
O abacateiro amplo no quintal remoto.
O insondável poder de subir entre galhos e perigos: meu pai
submete o gigante, e ele cede: é tudo nosso.
Pássaro cantando atrás da porta.
Cuidado, cuidado, não aperte o bichinho.
Você põe nesta caixa, esse é o plano,
depois uma gaiola no abacateiro.
Mudança pro Rio de Janeiro, tem que ficar o canário.
Era uma sina, eu não sabia,
não dar sorte com o ter bichos.
A cicatriz insensível sob os anos.
A mãe culpada encontra outro canário.
Algo ao longe aspira a refazer-se, não fosse inútil,
não fosse todo o ridículo.
Jamais cantou, não como o primeiro,
mas era uma companhia, e se não cantava,
foi o peso do nome que lhe dei.
Um dia, estou nos Estados Unidos.
Toca o telefone chorando: Elvis morreu.
Sentença de todo ridícula e contraditória em si mesma – não obstante,
Elvis está morto. Tomo os detalhes do enterro: o jornal, a caixa.
Saí sem lhe dizer palavra.
A liberdade de estar velho ou morto.
Não o cantor: só a canção importa,
o Amor. E consolar quem chora.