(Inédito)
Uma jangada, esta vela vermelha,
que vai subindo o rio, uma outra vez.
Este corpo crestado como o barco,
de sóis e solavancos, solidão.
O rosto todo em linhas de desmaio,
mais nada, não. A rede, uma zagaia,
uma vontade só de navegar,
alguma dor com nome de mulher.
Navego sobre o tempo e as gerações,
não tenho outra urgência que saber
o que puder saber, sem me arvorar,
sem precisar cegar a minha fé.
Não quero a vida mais do que este dia,
não quero a morte: olho-a com calma,
garça do banhado alçando vôo.
Lenta, precisa como alguém que volta,
vai desenhar no céu um traço simples
e sabe Deus onde achará seu pouso.